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Há uma semana eu vivi o momento mais assustador da minha vida.

E hoje, pensando nele, percebo que fui vítima de um preconceito estranhíssimo que futuras mamães gastroplastizadas sofrem.

Quando engravidamos após a cirurgia bariátrica vivemos naturalmente assustadas. Temos alguns medos clássicos, como por exemplo a possibilidade dos grampos cirúrgicos explodirem a medida que o bebê cresce. Temos o medo de ganhar muito peso de novo. Nos preocupamos dobrado com a alimentação, já que comemos pouco e com isso o bebê talvez receba uma quantidade menor de nutrientes. Nossos medos internos só não ultrapassam o preconceito que sofremos o tempo todo.

Assim que contamos da gestação as pessoas já perguntam logo:

- Ué, o médico liberou?

- Nossa, não tem perigo?

- Cuidado pra não engordar de novo, viu?

- Ih, será que você vai conseguir amamentar?

- Parto só cesárea, né? Porque imagina fazer força no parto normal com esses grampos todos aí dentro?

E as questões não param por aí. Existe a falta de conhecimento e existe o preconceito mesmo, de achar que aquela mulher é menos capaz que outras, que mulheres normais. Uma amiga me relatou que ouviu da própria sogra a pior frase que ela poderia ouvir durante o período gestacional “ó, seu filho vai nascer do tamanho de um caroço de feijão”. Cadê a sensibilidade? Cadê o respeito?

Agora, imagina ouvir coisas parecidas de um médico? Pois é, isso aconteceu comigo há uma semana.

Com 21 semanas e mais 4 dias de gestação, fui fazer uma ultrassonografia morfológica. Aquele, que é considerado o exame mais importante da gravidez toda. Serve para avaliar o desenvolvimento do bebê, ver os funcionamento dos órgãos e é feito entre 20 e 24 semanas. Portanto, eu estava dentro do prazo.

Quando cheguei na clínica a médica super conceituada, após me deixar esperando mais de 20 minutos numa sala gelada e de barriga pra fora, olhou as minhas cicatrizes e quis saber qual era a origem. Expliquei eu eu havia feito uma cirurgia bariátrica. Ela me perguntou quanto de peso eu havia perdido, contei que mais de 60kg e expliquei que por esse motivo, tenho uma flacidez abdominal e portanto não estou com aquele barrigão lindo de grávida. Fora o fato de ter ganho pouco peso, até agora. O que também é perfeitamente normal.

Quando terminei as explicações ela, antes de colocar o gel e sequer encostar o transdutor na minha barriga, fez o primeiro comentário infeliz do dia: “estranho, sua barriga tá muito pequena”. À princípio eu não me importei, afinal, isso não significa lá grandes coisas.

Ao começar o exame, ela me olhou e disse que meu bebê era muito pequeno. Não tinha tamanho de um bebê de 21 semanas. Ela não tinha ficado nem 1 minuto fazendo o exame. Não mediu o bebê, nada. Ela olhou a tela e pronto. Depois disse que eu tinha pouco líquido amniótico, afinal, eu não tinha como ter muito, tendo feito bariátrica e bebendo tão pouca água. Começou a me explicar como isso era prejudicial, me limpou e sugeriu que eu fosse pra casa por as pernas pro alto e rezar para que a gestação fosse para frente. Porque, segundo ela, a situação não era nada boa. Não fiz a morfológica, coloquei a minha roupa aos prantos e tive que ser confortada pela minha família, que nessa altura, já estava desesperada também.

Como eu venho fazendo exames regularmente, achei tudo absurdamente estranho. Não era possível aquilo, primeira vez que ouvi qualquer coisa parecida. Corri pra consulta com a minha GO. Chegando lá, e com todas as medidas feitas, com cautela e carinho, ela me tranquilizou. Minha altura uterina estava perfeitamente normal, o coração do bebê batendo super bem. Mas me sugeriu uma outra ultra, com outro médico. Só pra “acalmar o coração”. Fui fazer, naquele mesmo dia. Eu jamais dormiria em paz depois de tudo que ouvi.

E pronto. minha bebê está muito bem. Tamanho normal para a Idade Gestacional. Peso normal. Líquido amniótico normal. Tudo como deve ser. Tudo como tem sido desde o começo: normal.

Conversando com a médica que fez a minha segunda ultra do dia, chegamos a uma dura conclusão. Antes de começar o meu exame, a primeira médica já detectou uma gravidez problema, só porque eu tenho uma bariátrica. Já percebeu que fazer exame numa barriga tão cheia de flacidez era algo um pouco mais trabalhoso, mas que com jeitinho, tudo funcionaria perfeitamente. Talvez ela fosse levar um pouco mais de tempo para ver os órgãos da minha filha, já que meu corpo não ajuda a uma visualização tão perfeita. Talvez ela fosse estranhar aquela barriga tão cheia de marcas, mas estava ali, tudo estava do jeito que tinha que estar. A não ser a boa vontade da “dotora”.

Depois do susto, consegui falar sobre o que houve com outra amiga gastroplastizada e nova mamãe. Ela me contou que aconteceu exatamente a mesma coisa com ela quando da sua morfológica. Ela ouviu as mesmas coisas que eu ouvi, ela sentiu os mesmos medos que eu senti. E sem motivo algum, por falta de vontade de um médico de compreender a anatomia diferente daquela paciente.

Um dia para ser esquecido. Já estou com uma nova morfológica marcada, com outro médico, claro. Minha bebê tem estado super ativa, mexe pra caramba, dá altos pulos na minha barriga cheia de marcas. Parei de sentir vergonha das muitas cicatrizes que tenho, do umbigo feio, dos cortezinhos. Agora, eu só tenho olhos pras mexidinhas dela. Conto cada uma delas e as sinto com um prazer indescritível. Que só outra mulher, que está à espera de um bebê é capaz de sentir.

Qualquer mulher. Seja ela gorda, magra ou até mesmo uma ex obesa mórbida, como eu. Que agora, tem vida transbordando por todos os lados.

Ah, e respondendo as perguntas que mais ouvimos:

- O médico não autorizou ou desautorizou, mas já detectou que eu estou suficiente bem para ter um filho;

- Não tem perigo algum. Gravidez não é doença, afinal;

- Não vou engordar de novo, estou engordando o que preciso para me manter saudável e fazer a minha bebê crescer;

- Se eu vou conseguir amamentar eu não. Esse ainda é um assunto que gera muitas dúvidas (e que escreverei mais pra frente), mas estou fazendo o meu melhor para conseguir;

- Parto normal, sim! Ou cesárea se eu quiser! Ou domicilar se eu pudesse! Ou sei lá mais quantas formas de parir existem. Afinal, eu operei o estômago e não o útero. E os grampos não vão explodir. Eles estão bem presinhos. Garanto e já testei quando fiquei pegando uma porrada de peso na academia e todo mundo achou super normal